E.C.LINDOSO - DE PRESUNÇÃO DIVINA E CASTIGO PERENE

Esta é a minha família.  Liberdade era nosso lema e os quatro irmãos a usaram poderosamente já que aqueles idos permitiam.  Faltou-nos a liga da fraternidade já que o ímã das afinidades de fora eram mais fortes que os liames de dentro.  Os cultos domésticos eram uma prática constante, mas só.  

Eramos chamados de "os crentes", ou "os bodes" e revidávamos com "os incrédulos" ou  "mundanos", em relação aos outros.  E íamos crescendo, em todas as idades e cada vez mais dispersos.  Como é de praxe, a religiosidade de um ninho acompanha vida á fora dos ali nascidos, como uma cultura familiar;  a história de conversão ou convicção é uma bárbara balela e é na verdade um hábito formal. Como nesses aglomerados domésticos sempre aparace um diferente, tal qual reza a psicologia, quando ele desponta e é percebido, é cognominado de "ovelha negra" e severamente castigado e até cuspido da interação com a irmandade da grei.  Aos doze anos assestei o rito da Profissão de Fé e aos quinze, projeto de homem, fui solicitado a pedir eliminação do grupo seitual.  Como não o fiz, foi feito compulsoriamente. em sessão, pela igreja.  Eles castigam com o humor presumido de um Deus, coisa por mim julgada abominável que perdura por todos esses setenta e quatro anos posteriores.


Hoje eu presidia uma família que tão livre como fôramos, constante hoje de sete filhos menos um, quinze netos e seis bisnetos, ao todo vinte e oito descendentes, com uma fé incrível despejam raízes em quatro seitas evangélicas, muito felizes e com passaporte para o Paraíso, em primeira classe.  Como dizia um filósofo português, o Cristo é vendido em grosso e a varejo, por metro ou grama, como queira o cliente.  A mãe deles foi seduzida loucamente, não pelo Cristo, mas pela agitação que essa  trupe oferece.  Novamente fui excluído da fraternidade, indo para um ostracismo solitário, até minha ida para a origem, em espírito, no fim.

Como aceito que religiosidade é um impulso fisiológico e irresistível;  Como aceito que a razão nos foi dada para ser usada, não tenho receio nem medo em fazer isso.  Então, racionalmente mantenho e conservo minha comunhão com Deus no cotidiano, em qualquer hora e em qualquer lugar.  Minhas dúvidas eu as resolvo pela razão e não sendo possível, reputo ao Mistério Divino e não forço a barra;  confio na Sua decantada misericórdia e aguardo o desencarne da alma aí já espiritualizada e o retorno ao ponto de partida imediato, como fazem as tartarugas e os patos selvagens, sem me perder no caminho, e automaticamente.  

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